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Livro: Os dois períodos intermediários do Antigo Egito no contexto da expansão do grande mercado em tempo longuíssimo (Art. 2, 1.;2.;3., p. 11-18) www.tribodossantos.com.br
O I Período Intermediário apresentou o aspecto estrutural pertinente ao modelo feudal de formação social. Esse período é chamado, também e por isso mesmo, de Idade Feudal egípcia.[1] Em relação à formação social imediatamente antecedente (VI Dinastia), a formação social feudal egípcia apresentou, sobremodo no Alto Egito, notável regressão do nível de complexidade da divisão social do trabalho. Notável regressão essa que apresentou os principais aspectos: acentuada retração do comércio, da indústria e da cultura; fragmentação do poder central em contraposição à ascensão dos nomarcas e nobres; não mais a cidade-estado e seu pequeno território e sim uma vasta área campestre e o trabalho exercido pelo servo da terra passam a ser proeminentes, e bases reais da sócio-história egípcia, nesse período;[2] um clero poderoso monopolizava uma cultura decadente.
O regime feudal egípcio ou “Primeiro Período Intermediário” apresentou, entre outros, dois grupos de aspectos marcantes, os quais nos sugerem nomeá-lo de etapa de transposição. Transposição do processo geral de expansão do grande mercado, que vinha se expandindo através de seis sucessivas escalas imperiais (I, II, III, IV, V e VI Dinastia), para alçá-lo à escala global.
- Primeiro grupo de aspectos marcantes do primeiro período intermediário: ruptura.
As seis sucessivas escalas imperiais tinham como base para essa expansão a cidade-estado e seu pequeno território adjacente. Na sexta escala imperial (VI Dinastia), o processo expansivo chegara ao seu limite. Posto que, a cidade–estado enquanto base dessa expansão e uma delas (Mênfis) como sede do governo central do império, não mais suportara gerenciar a configuração espacial, que o grande mercado lhe atribuíra. Em razão disto, o processo de expansão do grande mercado e a respectiva configuração espacial pertinente à sexta escala imperial (VI Dinastia) sofreram uma ruptura. Eles entraram em processo de depressão e se fragmentaram em três grandes configurações espaciais: o Delta, o Médio Egito (Heracleópolis ou Henen-nesw) e o Alto Egito (Tebas ou Waset).[3] No Alto Egito, as características feudais anteriormente citadas, teriam se cristalizado de modo mais arraigado, com relação às duas outras configurações espaciais.
- Segundo grupo de aspectos marcantes do primeiro período intermediário.
A formação social feudal egípcia em geral e em particular o Alto Egito (onde as características feudais se desenvolveram de modo mais definido) se estabeleceram como pontos de partida, para engendrar, por dentro de si mesmos, a formação social peculiar ao Médio Império (XII Dinastia). Esta formação social se caracterizou, em distinção àquela, pelo incremento do comércio, da indústria, da cultura, pela ascensão de classes médias empreendedoras e pelo desenvolvimento de aspectos “democráticos”.[4]
- O modo feudal de produção do Alto Egito como ruptura da fase precedente, e ponto de partida para a introdução de uma fase mais expansiva, isto é, a formação da grande rede global de mercados macro-regionais pré-diluvianos.
A formação social feudal do Alto Egito se estabeleceu como ponto de partida, também e através da formação social do tipo “capitalista” (Médio Império) por ela engendrada, para a criação de uma grande rede global de mercados macro-regionais. Rede global esta que consistiu na escala global de expansão do grande mercado, e que articulou os seguintes mercados macro-regionais: egípcio; egeu; hitita; mesopotâmico. E também aquele formado pelas cidades (Mohenjo-daro, Harapa, etc.) da bacia do rio Indo; o elamita; e aquele outro constituído pela Fenícia, Síria e Canaã.[5]
A formação social mercantilista do Médio Império e a supracitada rede global do grande mercado tiveram, como ponto de partida, a formação social e respectivo modo feudal de produção que se desenvolveram no Alto Egito. Ou seja, partiram de um vasto terreno campestre (Vale), no qual a divisão social do trabalho houvera regredido ao estágio de proeminência das atividades peculiares ao campo. Isto ocorreu em distinção à cidade-estado e seu pequeno território, que havia sido a base sobre a qual se expandiram, precedentemente, as primeiras seis sucessivas dinastias. Podemos presumir como o regime feudal do Vale criou e difundiu uma cultura do tipo “capitalista”. Pois, Já foi bastante estudado tanto o regime feudal que se desenvolveu na Europa Ocidental (a partir da fragmentação do Império Romano) como o recrudescimento, por dentro dele, do comércio, da formação do grande mercado global e a gênese do sistema capitalista vigente ainda hoje.[6]
O processo natural de complexidade intrínseco à formação social feudal egípcia engendrou, gradativamente, o recrudescimento do comércio, da manufatura, da cultura, das velhas cidades, e gerou burgos e novas cidades. As classes médias burguesas empreendedoras se desenvolveram nas cidades, e iriam incrementar ainda mais o comércio, a indústria, as finanças e a cultura. É provável que algum dos seus ideólogos tenham criado e difundido um tipo de racionalização (ideologia) semelhante àquela inventada por Lutero e aprimorada por Calvino: “trabalho por vocação”, a ética protestante, ou seja, o espírito do capitalismo.[7] No Alto Egito, o modelo de formação social mercantil, burguesa e revolucionária se desenvolveu. Ela selecionou uma elite dirigente vigorosa e capaz de servir ao grande mercado, rompendo barreiras comerciais no sentido de expandi-lo ao nível global. Assim, a XI Dinastia que se constituiu em Tebas, rearticulou os mercados regionais do Alto Egito e estendeu esse seu poder de rearticulação sobre o Médio e o Baixo Egito.[8]
Enfim, a partir de uma poderosa ideologia econômica que implementou o ímpeto exacerbadamente mercantilista e capitalista desenvolvido no Alto Egito, o mercado macro-regional egípcio se unificou, sob a gerência de Montuhotep I. Mercado e respectivo modelo de formação social estes que se puseram como base, para a XII Dinastia inaugurar, por volta de 2000 a.C., através do faraó Amenemet I, o período que se convencionou chamar de Médio Império. Essa dinastia atuou, no sentido ideológico-econômico mercantilista e dando início à restauração da monarquia absoluta, como carro chefe e eixo central e dinâmico, para a formação da rede global do grande mercado. Para esta rede convergiram os demais mercados macro-regionais, que se desenvolviam simultaneamente (egeu, hitita, mesopotâmico, etc.), mas desprovidos da ideologia e do ímpeto mercantilista, que norteava o mercado macro-regional egípcio.
No contexto apontado acima, então, ocorrera, parece, um fenômeno sócio-histórico semelhante àquele desenvolvido durante o início da Idade Moderna. Esta fase sócio-histórica é própria do Ocidente, e é marcada como período da Revolução Comercial e de transição do modo de produção feudal para o modo capitalista de produção. Durante a fase inicial (1400-1700 d.C.) da Idade Moderna, o ímpeto mercantilista associado à política absolutista motivaram determinados países (Espanha, Inglaterra, Alemanha, França, etc.) da Europa Ocidental a desenvolverem impérios ultramarinos. Desse modo, a Revolução Comercial engendrada por dentro do decadente regime feudal circunscrito à Europa Ocidental, “deslocou as bases do comércio do plano local e regional da Idade Média para a escala mundial”.[9] Em outros termos, em seu conjunto, o mercado macro-regional da Europa Ocidental atuou como eixo central e dinâmico, para a formação da grande rede global de mercados macro-regionais. Para esta rede convergiram todos os demais mercados macro-regionais que se desenvolviam simultaneamente, ou eram pré-existentes, ou decadentes (aqueles outrora compreendidos pela Civilização Bizantina e Civilização Sarracena, o hindu, o chinês, etc.). Mas, desprovidos da ideologia e do ímpeto mercantilista que se desenvolvera por dentro do processo de complexidade social do modo de produção feudal. E, transformou em colônias mercantis a África, as Américas, etc.
É oportuno fazermos uma observação, ainda pertinente ao contexto sócio-histórico em tempo muito longo, com referência ao processo geral de expansão do grande mercado. Na era pós-diluviana (= Pós-II Período Intermediário), o modelo de formação social feudal começou a se desenvolver, em torno de 400 d.C., na Europa Ocidental, em consequência da decadência e fragmentação do Império Romano. A formação social feudal europeia desempenhou, então, a função homóloga – etapa de transposição – àquela desempenhada, outrora, pela formação social feudal do Egito pré-diluviano (= Pré-II Período Intermediário). Senão, vejamos. O processo geral do grande mercado vinha se expandindo através de seis sucessivas escalas imperiais (1ª – Novo Império egípcio; 2ª – Império Assírio; 3ª – Império Babilônico caldeu; 4ª – Império Persa; 5ª – Império Helenístico; 6ª – Império Romano). Na sexta, última e mais abrangente escala imperial, as elites da cidade-estado (Roma) sede do respectivo império cumpriram suas funções até atingirem os limites de suas possibilidades.
Ao atingirem os limites acima citados, as elites romanas não suportaram continuar gerenciando, o processo expansivo que o grande mercado lhe incumbira. Pois, a dimensão da configuração espacial do grande mercado que lhe competia gerenciar era demasiadamente extensa. A partir de cerca do ano 400 d.C., essa configuração espacial começou a se fragmentar, gradativamente, em três grandes partes: 1ª – O regime feudal de formação social se desenvolvera na Europa Ocidental (metade ocidental do Império); 2ª – O Império Bizantino (400-1453 d.C.) desenvolvera-se na parte oriental do decadente Império Romano, incluindo as províncias dos Césares no Oriente Próximo, cujo modelo de formação social diferira do feudalismo da Europa Ocidental, em razão de haver preservado, comparativamente, razoável nível das atividades industriais e comerciais;[10] 3ª – O Império Sarraceno (630-1300 a.C.) desenvolveu-se, a partir da Arábia, e se estendeu das fronteiras da Índia até o Estreito de Gibraltar e os Pirineus, incluindo a Pérsia, a Síria, o Egito, a África do Norte e a Espanha.[11] As atividades comerciais, industriais e culturais apresentaram notáveis desenvolvimentos, e formavam as bases principais do respectivo modelo de formação social. O comércio e a indústria eram menos controlados pelo estado, em comparação com o Império Bizantino.[12]
- O modelo de etapa de transposição característico do Primeiro Período Intermediário egípcio operado pelo grande mercado, na era pós-diluviana.
No modelo de formação social feudal da Europa Ocidental, os níveis das atividades comerciais, industriais e da cultura regrediram drasticamente, em comparação com a época do Império Romano. O modo de produção feudal desenvolveu-se, baseado no trabalho do servo da terra do senhor feudal, sobre uma vasta região. Este modelo de formação social foi se tornando, natural e gradativamente, cada vez mais complexo. Desse modo, ele engendrou, intrinsecamente, a revolução comercial, isto é, a base e ponto de partida para o desenvolvimento da grande rede global de mercados macro-regionais existente ainda hoje. A formação social feudal atuou, assim, como etapa de transposição do processo geral do grande mercado pós-diluviano, transpondo-o da sexta escala imperial (o nível e respectiva área de abrangência à época final do Império Romano), para alçá-lo à escala global.
[1] Cf. Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 47.
[2] Marx, K. e Engels, F. Ideologia Alemã, e outros escritos, p. 19: Eles notaram, na Europa Ocidental, que o modelo feudal (terceira forma de propriedade) parte do campo, em distinção à antiguidade romana e grega, cuja forma de propriedade partia da cidade.
[3] Lévêque, P. As Primeiras Civilizações – Volume I: Os Impérios de Bronze, p. 146-147, 151.
[4] Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 48.
[5] Cf. Machado, F. A. Teoria da História – Do grande mercado global pré-diluviano ao grande mercado global contemporâneo, p. 39-60: http://tribodossantos.com.br/pdf/Teoria%20da%20Hist%C3%B3ria%20-%20introdu%C3%A7%C3%A3o.pdf
Cf. ART. 6: O mercado regional egípcio (Médio Império) como referência para o estudo da formação do grande mercado global pré-diluviano (Art. 6, 1.1. e 1.1.1, p. 39-47):
http://tribodossantos.blogspot.com.br/2013/02/o-mercado-regional-egipcio-medio.html
[6] Cf. Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 220-231.
[7] Weber, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo, p. 4-5, 39, 54-58.
[8] Cf. Lévêque, P. As Primeiras Civilizações – Volume I: Os Impérios de Bronze, p. 150-153.
[9] Burns, E. M. História da Civilização Ocidental, p. 503.
[10] Cf. Idem, p. 287-289.
[11] Cf. Idem, p. 300.
[12] Cf. Idem, p. 309.